quarta-feira, 30 de maio de 2012

A quem possa interessar...


«a Priberam disponibiliza, em serviço gratuito on-line, o corrector ortográfico e o corrector sintáctico (apenas com sugestões, sem explicação gramatical dos erros) para português europeu, para português do Brasil e para espanhol. Em ambas as variedades da língua portuguesa é possível usar as versões com e sem o Acordo Ortográfico de 1990. A partir da janela disponível no ecrã, o utilizador pode digitar as palavras ou as frases (até ao limite de 3000 caracteres) sobre as quais tem dúvidas, seleccionar a língua que pretende e visualizar as correcções propostas.»

Concordância do verbo com o sujeito



«Tal como acontece na concordância entre substantivos e adjectivos, a concordância entre sujeito (que pode ser composto por vários nomes) e verbo é regida por uma regra geral que diz que o verbo concorda com o nome em género e número.


No entanto, podem surgir várias excepções e casos duvidosos. Normalmente estes casos devem ser regidos pelo princípio de querermos dar um traço de unidade ou diversidade ao sujeito. Na seguinte lista indicamos alguns casos que podem levantar dúvidas:

1) Quando o sujeito é composto por dois ou mais nomes ou pronomes no singular, e quando estes vão para antes do verbo, este vai para o plural (Ex.: O João, a Maria e o Rodrigo vão à escola).

2) Se o sujeito for composto por pronomes pessoais diferentes, a 1.ª pessoa prevalece sobre as restantes e a 3.ª pessoa normalmente prevalece sobre a 2.ª (Ex.: Tu e ele vão correr).

 
3) Se o verbo estiver anteposto a um sujeito composto por vários nomes, o verbo pode ir no singular (Ex.: Está a crescer o analfabetismo e a pobreza).

 
4) Se o verbo estiver antes do sujeito e o primeiro elemento do sujeito for singular, o verbo pode ficar também no singular (Ex.: Apareceu o Miguel e os irmãos).

 
5) Quando o sujeito é composto por vários nomes no singular que exprimem a noção de gradualidade ou que, de alguma forma, revelam unidade semântica e não são unidos pela conjunção e podem ser associados a um verbo no singular (Ex.: Essa revolta, fúria, raiva, será a tua perdição).

6) Se o sujeito traduzir uma pluralidade de elementos abrangidos por termos como nada, ninguém, tudo, isso, isto, aquilo, o verbo vai para o singular (Ex.: A escova, a roupa, o dinheiro: tudo está dentro da mala).

7) Quando há vários nomes mas o verbo afecta apenas um destes, o verbo fica no singular (Ex.: O João ou o Frederico vai tratar do assunto).

8) Se o sujeito for composto de elementos unidos por com, o verbo vai para o singular, se for anteposto ao sujeito, e para o plural, se for posposto (Ex. Chegou o João com a Maria / O João com a Maria encontraram-nos).


9) No caso de nem ou ou, o verbo fica no singular, se a acção se refere apenas um dos elementos do sujeito (Ex.: Nem o presidente nem o primeiro-ministro esteve presente), ou fica no plural, se abranger ambos os sujeitos (Ex.: O Nelson ou o Marco podem ficar cá em casa).


10) O sujeito composto por infinitivos leva sempre o verbo no singular (Ex.: Ir e vir é um saltinho).

 
11) A expressão um dos que é acompanhada do verbo no plural (Ex.: Ele foi um dos que sobreviveram ao desastre).

 
12) Quando os dois sujeitos partilham claramente a mesma identidade, o verbo normalmente vai para o singular (Ex.: Clark Kent e o Super-homem é uma e a mesma pessoa).

 
13) Numa oração relativa introduzida por quem, o verbo vai para a 3.ª pessoa do singular (Ex.: Foram vocês quem agrediu o Zé?). Mas se for usado o pronome que, o verbo concorda com o antecedente (Ex.: Foram vocês que agrediram o Zé?). No entanto, se o antecedente de que for uma expressão partitiva, o verbo vai para a 3.ª pessoa do plural (Ex.: Tu és um de muitos que ficaram para trás.)

 
14) Nas orações impessoais, os verbos ser e parecer concordam com o predicativo (Ex.: São nove horas).


15) O sujeito composto constituído por mais de uma oração não implica a concordância verbal no plural (Ex.: Quem já está e quem está para chegar vai ter de esperar).»

Regras de translineação



«(...) [T]ranscrevo – acrescentando à grafia de alguns vocábulos no Brasil a forma adoptada em Portugal – as regras enunciadas no dicionário brasileiro Michaelis.
Entre os dicionários que conheço, este é o único que indica a divisão de cada palavra adaptada às necessidades de translineação.
Por exemplo: as sílabas de carro são ca-rro (o dígrafo rr equivale a uma consoante). Mas, na mudança de linha, deve ficar um erre no final da linha e o outro erre no início da linha seguinte.
"Na modalidade escrita, indicamos a divisão silábica com o hífen. Esta separação obedece às regras de silabação.
Não se separam:
  1. as letras com que representamos os dígrafos ch, lh e nh:cha-ma, ma-lha, ma-nhã, a-char, fi-lho, a-ma-nhe-cer;
  2. os encontros consonantais que iniciam sílaba:;a-blu-ção, cla-va, re-gra, a-bran-dar, dra-gão, tra-ve;
  3. a consoante inicial seguida de outra consoante:gno-mo, mne-mô-ni-co (no Brasil) / mne-mó-ni-co (em Portugal), psi-có-ti-co;
  4. as letras com que representamos os ditongos:a-ni-mais, cá-rie, sá-bio, gló-ria, au-ro-ra, or-dei-ro, jó-ia, réu;
  5. as letras com que iniciamos os tritongos:a-güen-tar (no Brasil) / a-guen-tar (em Portugal), sa-guão, Pa-ra-guai, u-ru-guai-a-na, ar-güiu (no Brasil) / ar-guiu (em Portugal), en-xá-guam (no Brasil) / en-xa-guam (em Portugal).
Separam-se:
  1. as letras com que representamos os dígrafos rr, ss ,sc, sç, xc:
    car-ro, pás-sa-ro, des-ci-da, cres-ça, ex-ce-len-te;
  2. as letras com que representamos os hiatos:
    sa-ú-de, cru-el, gra-ú-na, , re-cu-o, vô-o (no Brasil) / vo-o (em Portugal);
  3. as consoantes seguidas que pertencem a sílabas diferentes:
    ab-di-car, cis-mar, ab-dô-mem (no Brasil) / ab-dó-men (em Portugal), bis-ca-te, sub-lo-car, as-pec-to."»
In http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=4760 (30/5/2012)


Diário de bordo (Cristiana Gonçalves)


13 de Dezembro de 1521,



Já no cais, a despedirmo-nos de tudo e todos - pois estamos de partida para uma viagem de descobertas e novas aventuras, com muita tripulação, uns navios com mais, outros com menos -, mas íamos em grande número.
Espera-nos uma grande aventura, com momentos terríveis, outros inesquecíveis. Tenho a noção, como o resto da tripulação, que nem todos podemos chegar ao fim da viagem, pois o que nos espera no mar não é nada bom.


15 de Dezembro de 1521,


De manhã, depois de termos dormido mal, ainda acordámos com um cheiro a rum, pois alguns da tripulação deram para embriagar-se.
Passámos uma tarde terrível, demos com criaturas terríveis e estranhas que nos danificaram o barco e alguns da tripulação caíram ao mar sem nunca mais serem vistos, mas tivemos de continuar, apesar de ser difícil.
31 de Dezembro de 1521,

Estamos no final do mês de Dezembro, mas ainda nos falta muito para acabar a viagem. Em menos de um mês já perdemos muitas pessoas, ou com tempestades gigantes, ou com acidentes. Apesar de irmos devagar, já fizemos um terço da viagem, estando a ir a um passo bom, apesar das desgraças, de mortes e de perdermos muitas das embarcações.

(Texto submetido a correções pontuais)
 








terça-feira, 29 de maio de 2012

Bocage, a série

Pré-romantismo de Bocage

«
No aspecto semântico muito mais do que na forma, deixa Bocage entrever na sua obra um substrato romântico que aflora de vez em quando, com sensível nitidez, à superfície de numerosas composições. Isto dá-se sempre que o Poeta manifesta:
1. um sentido agudo da sua personalidade, que o leva a retratar-se, a ver-se nascido sob o signo da infelicidade, a ter remorsos e horror ao aniquilamento, a querer redimir a vida com a morte, a comprazer-se em tumultos interiores;
2. uma melancolia enfermiça, um pessimismo e um desespero vizinhos do desejo do suicídio;
3. o amor à liberdade, a inadaptação ao ambiente quê o cerca, a ponto de querer um mundo imaginado a seu bel-prazer;
4. a crença em pressentimentos e agouros, a fidelidade aos impulsos dos sentidos e afectos;
5. a fascinação da penumbra tumular, do crepúsculo, da treva, do macabro, da paisagem tipo «belo horrível»;
6. um erotismo ora histérico até ao desespero, como quando grita:
Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,

de ti só trago cheia, ó Jónia, a mente,

do mais e de mim mesmo ando esquecido;
ora doce e lânguido, como quando geme:

Urselina gentil, benigna e pura,

eis nas asas subtis de um ai cansado

a ti meu coração voa, alagado

em torrentes de sangue e de ternura...»

Manuel Maria Barbosa du Bocage



«O maior poeta do século XVIII português foi Manuel Maria de Barbosa du Bocage, émulo de Camões na vida e na obra. Nasceu em Setúbal, em 1765. Cedo, apaixona-se por Gertrudes (que aparece como Gertrúria em sua poesia), mas resolve alistar-se na Marinha de Guerra, em 1783. três anos depois, embarca na nau "Senhora da Vida", em viagem para Goa. Faz escala no Rio, onde se regala em festins e amores tropicais. Chegado à Índia, o tempo começa a correr-lhe bem: é promovido a tenente e mandado a Damão, mas deserta, levado por amavios de baixos amores. Em 1789, segue para Macau e, no ano seguinte, para Lisboa. Ao chegar, sabe com tristeza que Gertrudes se casara com seu irmão. Desgostoso, entrega-se a uma vida desregrada e boémia, ao mesmo tempo que frequenta a Nova Arcádia. Em 1797, é preso e condenado a receber doutrina dos oratorianos. Livre, passa a viver de traduções e tarefas similares. mas novas desgraças o espreitam, como a doença, paixões infelizes, tormentos da sensibilidade; recolhe-se ao leito, à espera do fim, que chega a 21 de Dezembro de 1805. Morre na miséria e arrependido. Seu pseudónimo arcádico era Elmano Sadino, formado com as letras do seu prenome e do rio Sado, que banha Setúbal.
Em sua vida, Bocage publicou Idílios Marítimos recitados na Academia das Belas-Artes de Lisboa (1791) e as Rimas (3 vols., 1791, 1799, 1804). Postumamente, com o título de Obras Poéticas, saíram mais dois volumes (1812 e 1813), e de Verdadeiras Inéditas Obras Poéticas, um. volume (1814). Em 1853, Inocêncio Francisco da Silva publicou-lhe as Poesias, em seis volumes, considerada a melhor edição do espólio poético bocageano.
Existem dois Bocages: o que o vulgo fixou através de anedotas, verdadeiras algumas e falsas outras, mas todas raiando na obscenidade grosseira, e o que a tradição literária nos legou.
Este é que importa, pois o primeiro segue trajectória secundária e infensa a qualquer configuração, visto o povo atribuir-lhe todos os ditos picantes que, não tendo paternidade conhecida, devem forçosamente pertencer a alguém. Desse ângulo, seu nome tornou-se mítico ou ao menos proverbial, decerto representando um tipo chocarreiro universal.
O segundo Bocage escreveu uma vasta obra poética fraccionada em dois sectores fundamentais: o satírico e o lírico. Quanto ao primeiro, Bocage alcançou ser estrela de primeira grandeza, ao lado dum Gregório de Matos, graças ao temperamento agressivo, impulsivo, cortante, amparado no dom da improvisação feliz e certeira. Contudo, a sátira ocupa lugar menos relevante em sua obra, seja porque de cunho pessoal e bilioso, seja porque dura tanto quanto o acontecimento que lhe dá causa e sentido. Exemplo característico do seu poderio satírico é a "Pena de Talião", em resposta a José Agostinho de Macedo.
Todavia, é na poesia lírica que o talento bocageano se realizou de modo particular. Cultivou a lírica elegíaca, a bucólica e a amorosa, exprimindo-as em idílios, odes, epigramas, cantatas, elegias, canções, epístolas, cançonetas, sonetos, etc. nos poemas longos, salvo contadas excepções, Bocage não se realiza plenamente: talvez porque, neles, fosse compelido a enquadrar-se dentro do convencionalismo neoclássico, ou porque exigissem um fôlego muito mais amplo do que lhe era permitido pela baixa rotação de seu mundo interior. De qualquer forma, tais composições inibiram, em vez de estimularem, o voo poético a Bocage: as normas arcádicas enrijeciam-lhe demasiadamente o verso e coarctavam-lhe a inspiração.
Os sonetos contêm, na verdade, o mais alto sopro de seu talento lírico, a tal ponto que Bocage vem sendo invariavelmente considerado um dos três maiores sonetistas da Língua, ao pé de Camões e Antero. É do primeiro que aprende a lição referente ao corte do soneto, mas acrescenta-lhe.novos dados de pessoal e singular intuição lírica: certo irracionalismo; estertores, confissões dramáticas de experiências vivas na carne lacerada, utilizando uma adjectivação subjectiva, diabólica, teatral, próxima da alucinação ("negras fúrias", "baça tristeza", "voraz dente", "mortíferos venenos", etc.); um ar anti-discursivo, que por vezes descamba no prosaísmo ou em soluções quotidianas e coloquiais. Com efeito, Bocage desembaraça a poesia, notadamente o soneto, das peias que a sufocavam antes, emprestando-lhe uma dicção fluente, vizinha da fala diária, obediente a uma lógica da emoção, que organiza os versos numa ordem directa, natural, em oposição à sintaxe arrevesada e tortuosa que florescia anteriormente, inclusive na pena de um Camões. Nítido rasgo de autonomia, aglutina-se com perfeição à tendência para exprimir uma sensibilidade encravada na "reportagem" do dia-a-dia, mas fascinada pela contemplação das alturas. Dessa polaridade nasce a tensão que torna o lirismo bocageano o mais original e forte de seu tempo, e prelúdio da modernidade romântica. Mais do que o restante da obra, os sonetos documentam-lhe a vida por dentro e por fora: testemunhos de suas andanças e tormentos de alma, constituem verdadeiras páginas de um diário íntimo, peculiaridade que os torna predecessores dos sonetos metafísicos de Antero, pelo pessimismo intrínseco e pela constante presença da morte.
Daqui decorre a primeira nota marcante da poesia lírica de Bocage: o seu pessoalismo. Com efeito, superando as regras e as coerções literárias e sociais ligadas ao movimento arcádico, a poesia bocageana identifica-se por um rebelde libertarismo emocional, às vezes violento e gritante, às vezes calmo e idealista. É fácil compreender que esse timbre de impulsiva origi-nalidade, fruto de especiais condições de temperamento, educação e. vida, guarda uma grande novidade para o tempo: talvez se possa dizer que Bocage anuncia o fim dos falsos pressupostos de nobreza artística, o fim da hipocrisia em arte (evidente em toda a cultura anterior, dissociada do homem em particular e em geral, e escrava de regras fixas e hipócritas, porque impedia que indivíduo e artista formassem uma única entidade na mesma pessoa).
Entretanto, como era inevitável, Bocage deixou-se contagiar pelo movimento literário vigente, mas com uma sinceridade de tal modo autêntica e convicta que lhe permitirá mudar de rumo no instante preciso. Por ser uma adesão de dentro para fora, quando foi o momento de buscar novos caminhos, não titubeou em fazê-lo, embora tanto lhe custasse, pois assumiu atitudes desabusadas que acabaram provocando impactos dolorosos nos padrões burgueses do tempo. Em resultado dessa metamorfose, pode-se falar em duas fases, ou maneiras, percorridas pela poesia lírica de Bocage.
A primeira fase, ou maneira, da poesia bocageana marca-se pelo influxo maior das regras e convenções trazidas pelo neoclassicismo arcádico, sintetizadas no culto do Fingimento e da Dependência, como o próprio poeta declara no soneto "Incultas produções da mocidade", que utilizou como uma espécie de prólogo às Rimas. Então, amargando amores infelizes (incluindo o desgosto de ver Gertrudes casada com seu irmão Gil), o poeta cerca-se de imagens mitológicas e clássicas, numa flagrante transposição de seus infortúnios: o mundo povoa-se de alegorias e o poeta arcadiza seus sentimentos: "Olha, Marília, as flautas dos pastores / Que bem que soam, como estão cadentes! / Olha o Tejo, a sorrir-se! Olha, não sentes / Os Zéfiros brincar por entre as flores?".
Concomitantemente, vão-se evidenciando longos debates entre a Razão (que o levaria para o bem) e o Sentimento (que o levaria para desatinos), num movimento oscilatório que resulta por certo de profundas causas pessoais e de causas gerais, pois começava a descombinar com os novos ares culturais de influência anglo-saxónica o gélido artificialismo arcádico. Não há dúvida que muito da contenção interior própria desse primeiro Bocage vem de ele, impelido pelo Fingimento e pela Dependência, ter aceitado o jugo do racionalismo clássico: não obstante o fizesse com sinceridade, "errou" ao violentar-se interiormente, e disso se penitenciará no futuro. Di-lo, já nesse estágio, a "dilaceração" permanente em que anda, agitado por uma angústia emocional que promana não só do seu caso amoroso, mas também da luta empreendida para quebrar a crosta da afectação clássica e permitir que venha à luz todo o seu alanceado mundo interior. Portanto, apesar dos condimentos clássicos já petrificados e de função mais decorativa, observa-se o "eu" do artista a impor-se tumultuoso e quente contra a impessoalidade, e mesmo a teatralidade e o fingimento, da poesia arcádica. É que o Fingimento e a Dependência se referem à sujeição fortuita de Bocage ao doutrinal arcádico: nos sonetos em que celebra Marília (por exemplo: "Marília, nos teus olhos buliçosos"), o "festival contentamento", provindo do amor pela musa e pelo encontre com a Natureza, esconde ou adia o sofrimento íntimo e verdadeiro do poeta, expresso noutros poemas (inclusive dedicados a Marília, como o que se inicia com o verso: "Minha alma se reparte em pensamentos"), em que a pose arcádica se dissipa em favor da confissão atormentada, depressiva e lúgubre.
Superadas as ténues sujeições neoclássicas, Bocage põe-se diante dum espelho, sozinho, fazendo-se espectáculo de si mesmo. Poesia da confissão e da emoção, eis o que emerge da nova equação armada: surgem agora as notas mais agudas e os temas carregados de mais dramaticidade na trajectória literária bocageana. Ao sentimento de desamparo por falta de afectos seguros e de certezas religiosas para substituir o Fingimento da juventude, soma-se a grande tragédia da solidão inexorável em face da Natureza e do Mundo. A solidão existencial e profunda do género humano é agora tema constante, a cuja dolorosa especulação se acrescenta a sondagem no mistério da morte. Esta, torna-se-lhe ideia fixa e tema igualmente contínuo em sua poesia: e a ela se junta a descoberta e fruição do mundo tenebroso dos horrores, novidade que o seu auto-escavamento frenético desvenda masoquistamente (cf. soneto "Õ retrato da Morte!, ó Noite amiga").
Poesia nocturna e soturna, correndo na esteira de igual tendência da poesia inglesa contemporânea, de que Young era figura de primeira plana, liga-se a temas de pessimismo e fatalismo: para Bocage, o Fado, entendido como irracional predestinação, determinou-lhe uma vida inteira de inarredáveis sofrimentos morais e físicos.
É agora, nessa poesia madura e de auto-análise, que Bocage alcança o máximo de seu potencial lírico, graças ao singular poder transfigurador que não recorre às ficções mitológi-cas nem às regras clássicas, mas, sim, procura expressões novas para transmitir os achados interiores que dramaticamente vai efectuando no correr do tempo.
Tem-se a poesia da confissão, da carpidação, do arrependimento, resultante da contempla-ção do "eu" a si próprio, numa dor perene, acima de qualquer contingência externa. Aqui, Bocage atinge acentos típicos da mais elevada poesia, pela purificação da sensibilidade, pela tensão dramática, pela sinceridade autobiográfica do sofrimento moral transposto em arte, pela sondagem interior processada quase sem os entraves da consciência, e, por fim, pelo encontro feliz de soluções expressivas que não ficaram totalmente desconhecidas ao longo do século XIX. A grandeza dessa poesia demonstra-se pelas epístolas a Gertrúria, a Josino e a Ursulina, e especialmente pelos sonetos, dos quais valia a pena lembrar os dois que levam o título de "Adeus, ó mundo, ó natureza, ó nada".
Note-se, ainda, que o lirismo de Bocage se elabora entre duas forças complementares: o subjectivismo ególatra, que o arrasta a revelar eruptivamente seu "eu" angustiado, e o uni-vetsalismo, que não advém de influências clássicas, senão do desenvolvimento, da amplifi-cação ao nível cósmico, das torturas interiores. Nesse pólo, o "eu" volve-se "Eu" ou "Nós" à custa de levar a auto-sondagem ao limite extremo. De onde Bocage permanecer lírico, embora de superior grandeza, quando apenas oferece ao leitor o espectáculo tenebroso de seu "eu", e ascender para a dimensão de épico quando universaliza, por meio da reflexão, da "sentença" que coroa os sonetos, os conteúdos de sua individualidade encarcerada. A segunda faceta assinala a presença da Razão, a primeira, do Sentimento: como este vence aquela, a excursão épica somente se realiza até certo ponto, e o poeta avança para o Romantismo.
Facilmente se conclui que o Bocage dessa fase ou maneira é todo ele pré-romântico, e é assim que deve ser considerado. Para ser integralmente romântico, faltou-lhe caminhar um passo mais e libertar-se por inteiro de sua formação neoclássica: ter-lhe-ia sido possível? E progredindo ainda um pouco, não significaria a "solução" de seu conflito íntimo e a redução da temperatura dramática e mesmo trágica de sua poesia? Não virá a grandeza que sua poesia também dos paradoxos em que mergulhava o poeta? Não incidirá nos transes de quem sabe que abandona um mundo sem poder aceitar totalmente o outro, a "marca" da poesia bocageana?
Em qualquer hipótese, émulo de Camões ("Camões, Grande Camões, quão semelhante / Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!"), Bocage alcançou ser dos Maiores poetas da Língua Portuguesa. E um cotejo entre ambos deveria fatalmente acusar os seguintes aspectos: Bocage é o primeiro poeta da Literatura Portuguesa que traz a poesia lírica para o plano terreno, quotidiano e burguês. De pés cravados no solo, agitava-o uma doença cultural que principiava a contagiar os espíritos mais sedentos de novos caminhos: a ânsia metafísica. Com efeito, era um sequioso de metafísica impossibilitado de superar o fascínio que em sua cerebração e sensibilidade exerciam os estímulos da vida física. Ao contrário, Camões migrava em esferas metafísicas, incapaz de ajustar-se ao mundo contingente; na verdade, mesmo quando se sentia "bicho da terra, vil e pequeno" sua óptica permanecia transcendental. Assim, a poesia de Bocage irrompe das vísceras, do sangue, dos ossos, e estribada em sentimentos menores que procuram ardorosamente escapar de seu círculo de fogo e ascender para as regiões abstractas. Em suma: para Camões a terra significava a dimensão do existir, ou do não-ser: para Bocage, seu território próprio e definitivo; e para o primeiro, os espaços sobrenaturais constituíam a morada do ser, enquanto para o outro se afiguravam o símbolo perfeito do inatingível.
Quando Bocage morreu, o solo já estava preparado para o advento das verdades novas trazidas pelo Romantismo. Se o seu ensinamento não foi imediatamente aproveitado, se sua obra não foi de pronto erguida ao plano em que se encontra hoje, é porque sua língua afiada tinha ganho vários inimigos, e o despeito, a inveja e a calúnia tinham feito o resto. No entanto, a obra bocageana tornou-se a grande ponte de ligação entre o melhor da poesia quinhentista, a de Camões, e a que vingaria no Romantismo, caracterizada essencialmente pelo signo da revolta e da mais profunda insatisfação, de que ele, Bocage, foi o primeiro a dar sincera medida e exemplo.»

In http://books.google.pt/books?id=xcQYSXj0xN0C&pg=PA108&lpg=PA108&dq=bocage+massaud+mois%C3%A9s&source=bl&ots=mud259WZHu&sig=wC7KJPoYEmujxDVMAnXUrQ7FwWI&hl=pt-PT&sa=X&ei=0dvET57_L4PA0QW6mrycCg&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false (29/5/2012)