terça-feira, 8 de novembro de 2011

Modernices

Pronto, está bem, talvez tenha exagerado no texto anterior. Mas enquanto não inventarem um "tablet" de significados, proponho-vos um glossário. Embora com um ar mais "chique" e mais moderno, o vocábulo designava, na Idade Média, «(...) a reunião, na parte final de um manuscrito ou coligida num volume próprio, de anotações (...) sobre o sentido de palavras antigas ou obscuras encontradas nos textos». 



Mas é a acepção de «conjunto de termos de uma área do conhecimento e os seus significados» que me interessa: na parte final do caderno de cada uma das disciplinas deverão escrever o vocabulário que o(a) professor(a) de cada disciplina emprega, oralmente e por escrito, bem como as palavras que vão surgindo nos textos em estudo.
Citações do volume IV (p. 1893) do Dicionário Houaiss

Estudar com eficácia III


Eu sei que se vão rir. Tenho a certeza absoluta de que nos últimos duzentos anos nenhum outro professor recomendou isto aos alunos, mas não quero saber e vou recomendar um... caderno de significados.
Um caderno de significados - um caderninho de significados - é um livrinho cujas páginas são divididas em duas colunas. Do lado esquerdo anotavam-se as outrora palavras desconhecidas. Do lado direito escreviam-se os respectivos significados. E porque escrevi eu "outrora" palavras desconhecidas? É que depois deste processo as aprendemos. Por isso, quando se rirem de mim, lembrem-se das inúmeras palavras que eu conheço graças a este método obsoleto... mas eficaz.

Estudar com eficácia II

Dando as minhas voltinhas pela turma, já vi que há alunos que já adoptaram uma das regras (digamos: a n.º 3) para estudar com eficácia: tirar bons apontamentos. Os bons apontamentos não são úteis apenas para o estudo, eles têm uma vantagem  que apelidaria... "terapia ocupacional": temos os dedos ocupados, não nos podemos dar ao luxo de nos distrairmos, porque, de contrário, lá se vão os apontamentos. Uma pedagogia de lápis na mão, básica mas eficaz. 
Quanto ao lápis propriamente dito, já sabem que sou adepta. Enganámo-nos? Corrigimos. Encontrámos uma palavra mais adequada? Alteramo-la.

Maravilhas tecnológicas

O Cancioneiro da Ajuda


 
O Cancioneiro da Biblioteca Nacional


O Cancioneiro da Vaticana


O Pergaminho Sharrer


Se clicarem no site-que vale-ouro (http://cantigas.fcsh.unl.pt/manuscritos.asp), poderão f-o-l-h-e-a-r
os manuscritos.

O que é... cantiga de amor?

Nobre, jogral tocando harpa


«Neste tipo de cantiga, o trovador empreende a confissão, dolorosa e quase elegíaca, de sua angustiante experiência passional frente a uma dama inacessível aos seus apelos, entre outras razões porque de superior estirpe social, enquanto ele era, quando muito, fidalgo decaído. Uma atmosfera plangente, suplicante, de litania, varre a cantiga de ponta a ponta. Os apelos do trovador colocam-se alto. num plano de espiritualidade, de idealidade ou contemplação platônica, mas entranham-se-lhe no mais fundo dos sentidos; o impulso erótico situado na raiz das súplicas transubstancia-se, purifica-se, sublima-se. Tudo se passa como se o trovador “fingisse”, disfarçando com o véu do espiritualismo, obediente às regras de conveniência social e da moda literária vinda da Provença, o verdadeiro e oculto sentido das solicitações dirigidas à dama. A custa de “fingidos” ou incorrespondidos, os estímulos amorosos transcendentalizam-se: repassa-os um torturante sofrimento interior que se segue à certeza da inútil súplica e da espera dum bem que nunca chega. É a coita (= sofrimento) de amor, que, afinal, ele confessa.
As mais das vezes, quem usa da palavra é o próprio trovador, dirigindo-a com respeito e subserviência à dama de seus cuidados (mia senhor ou mia dona = minha senhora), e rendendo-lhe o culto que o “ser­viço amoroso” lhe impunha. E este orienta-se de acordo com um rígido código de comportamento ético: as regras do “amor cortês”, recebidas da Provença. Segundo elas, o trovador teria de mencionar comedida-mente o seu sentimento (mesura), a fim de não incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada; teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudônimo (senhal), e prestar-lhe uma vassalagem que apresentava quatro fases: a primeira correspondia à condição de fenhedor, de quem se consome em suspiros; a segunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e pedir; entendedor é o namorado; drut, o amante. O lirismo trovadoresco português apenas conheceu as duas últimas fases, mas o drut (drudo em Português) se encontrava exclusivamente na cantiga de escárnio e maldizer- Também a senhal era desconhecida de nosso trovadorismo- Subordinando o seu sentimento às leis da corte amorosa, o trovador mostrava conhecer e respeitar as dificuldades interpostas pelas convenções e pela dama no rumo que o levaria à consecução dum bem impossível- Mais ainda: dum bem (e “fazer bem” significa corresponder aos requestos do trovador) que ele nem sempre desejava alcançar, pois seria pôr fim ao seu tormento masoquista, ou inicio dum outro maior. Em qualquer hipótese, só lhe restava sofrer, indefinidamente, a coita amorosa.
E ao tentar exprimir-se, a plangência da confissão do sentimento que o avassala, — apoiada numa melopéia própria de quem mais murmura suplicantemente do que fala —, vai num crescendo até a última estrofe (a estrofe era chamada na lírica trovadoresca de cobra; podia ainda receber o nome de cobla ou de talho). Visto uma idéia obsessiva estar empolgando o trovador, a confissão gira em torno dum mesmo núcleo, para cuja expressão o enamorado não acha palavras muito variadas, tão intenso e maciço é o sofrimento que o tortura. Ao contrário, a corrente emocional, movimentando-se num círculo vicioso, acaba por se repetir monotonamente, apenas mudado o grau do lamento, que aumenta em avalanche até o fim. O estribilho ou refrão, com que o trovador pode rematar cada estrofe, diz bem dessa angustiante idéia fixa para a qual ele não encontra expressão diversa.
Quando presente o estribilho, que é recurso típico da poesia popular, a cantiga chama-se de refrão- Quando ausente, a cantiga recebe o nome de cantiga de maestria, por tratar-se dum esquema estrófico mais complexo, intelectualizado, sem o suporte facilitador daquele expediente repetitivo.» Massaud Moisés, A literatura portuguesa

O que é... cantiga de amigo?

Nobre, jogral com viola de arco, jogral com harpa

Escrita (...) pelo trovador que compõe cantigas de amor, e mesmo as de escárnio e maldizer, esse tipo de cantiga focaliza o outro lado da relação amorosa: o fulcro do poema é agora representado pelo sofrimento amoroso da mulher, via de regra pertencente às camadas populares (pastoras, camponesas, etc.). O trovador, amado incondicionalmente pela moça humilde e ingênua do campo ou da zona ribeirinha, projeta-se-lhe no íntimo e desvenda-lhe o desgosto de amar e ser abandonada, em razão da guerra ou de outra mulher. O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o trovador: 1) pode ser ele precisamente o homem com quem a moça vive sua história; o sofrimento dela, o trovador é que o conhece, melhor do que ninguém; 2) por ser a jovem analfabeta, como acontecia mesmo às fidalgas.
O trovador vive uma dualidade amorosa, de onde extrai as duas formas de lirismo amoroso próprias da época: em espírito, dirige-se à dama aristocrática; com os sentidos, à camponesa ou à pastora. Por isso, pode expressar autenticamente os dois tipos de experiência passional, e sempre na primeira pessoa (do singular ou plural), 1) como agente amoroso que padece a incorrespondência, 2) como se falasse pela mulher que por ele desgraçadamente se apaixona. É digno de nota que essa ambigüidade, ou essa capacidade de projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento; extremamente curiosa como psicologia literária ou das relações humanas, não existia antes do trovadorismo nem jamais se repetiu depois.
No geral, quem ergue a voz é a própria mulher, dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, às fontes, aos riachos, O conteúdo da confissão é sempre formado duma paixão in­transitiva ou incompreendida, mas a que ela se entrega de corpo e alma. Ao passo que a cantiga de amor é idealista, a de amigo é realista, traduzindo um sentimento espontâneo, natural e primitivo por parte da mulher, e um sentimento donjuanesco e egoísta por parte do homem.
Uma tal paixão haveria de ter sua história: as cantigas surpreendem “momentos” do namoro, desde as primeiras horas da corte até as dores do abandono, ou da ausência, pelo fato de o bem-amado estar no fossado ou no bafordo, isto é, no serviço militar ou no exercício das armas. Por isso, a palavra amigo pode significar namorado e amante.
A cantiga de amigo possui caráter mais narrativo e descritivo que a de amor, de feição analítica e discursiva. E classifica-se de acordo com o lugar geográfico e as circunstâncias em que decorrem os acontecimentos, em serranilha, pastorela, barcarola, bailada, romaria, alba ou alvorada (surpreende os amantes no despertar dum novo dia, depois de uma noite de amor).» Massaud Moisés, A literatura portuguesa (transcrito de http://www.coladaweb.com/literatura/trovadorismo em 8/11/2011)

Um sítio que vale ouro




Cliquem em http://cantigas.fcsh.unl.pt/index.asp, usem e abusem.